Num tempo em que se discute a qualidade da água, a sustentabilidade dos recursos naturais e a saúde pública, vale a pena perguntar: estaremos a valorizar devidamente um dos recursos naturais mais singulares que Portugal possui?
As águas minerais naturais e de nascente não são apenas mais uma categoria de água disponível ao consumidor. São um património geológico nacional, protegido no subsolo e sujeito a um dos enquadramentos legais mais rigorosos. A sua principal característica é também a mais simples de explicar: chegam ao consumidor exatamente como a natureza as criou.
Esta realidade deixou de ser apenas uma convicção do setor para passar a assentar em evidência científica. O estudo produzido recentemente em Portugal pelo Laboratório de Análises do Instituto Superior Técnico (LAIST), em parceria com a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a APIAM, constitui um marco relevante no conhecimento destes recursos naturais. Recorreu a metodologias laboratoriais avançadas para avaliar, pela primeira vez, contaminantes orgânicos emergentes (substâncias químicas de origem sintética ou natural que, apesar de não serem comummente monitorizadas, representam riscos potenciais para a saúde e os ecossistemas), disruptores endócrinos (como bisfenol A e nonilfenol), fármacos, hormonas, pesticidas, metabolitos de pesticidas, contaminantes associados a materiais plásticos, herbicidas e PFAS ("químicos eternos").
Os resultados são claros: os contaminantes analisados não foram detetados ou apresentaram níveis sem relevância para a qualidade das águas, que mantiveram as suas características originais. Esta evidência confirma que a qualidade destes recursos assenta na proteção natural dos aquíferos, nas suas características hidrogeológicas e nos mecanismos de proteção das captações. Mais do que confirmar esta realidade, o estudo aprofunda o conhecimento técnico e científico sobre as águas minerais naturais e de nascente engarrafadas em Portugal e reforça a importância de preservar estes sistemas naturais. Contribui, assim, para um conhecimento mais sólido destes recursos e para decisões mais informadas sobre a sua preservação.
Mas o principal contributo deste estudo vai além da confirmação dos resultados obtidos: ajuda a compreender porque estas águas são diferentes. A sua qualidade resulta das condições naturais de circulação e filtração no subsolo e da proteção dos recursos hidrogeológicos subterrâneos. Por isso, a legislação proíbe qualquer desinfeção ou tratamento suscetível de alterar as suas características essenciais.
Esta especificidade confere às águas minerais naturais e de nascente um valor que vai muito além da sua função de consumo. Como o engarrafamento ocorre obrigatoriamente junto da origem, gera riqueza, emprego e investimento nos territórios onde o recurso existe. Proteger estas águas significa igualmente proteger os aquíferos, monitorizar as zonas envolventes às captações e assegurar uma gestão sustentável dos recursos hidrogeológicos, criando valor ambiental, económico e territorial.
Por tudo isto, importa perguntar se este património natural está a receber a atenção estratégica que merece.
Talvez tenha chegado o momento de olhar também para as águas minerais naturais e de nascente enquanto recurso estratégico nacional, cuja preservação interessa não apenas ao setor, mas ao país.
Valorizar este património é reconhecer a especificidade deste recurso. O desafio está nas mãos de todos: decisores públicos, reguladores, comunidade científica e consumidores. Porque proteger a origem é, afinal, a melhor forma de proteger o futuro.
Diretor-geral da APIAM – Águas Minerais Naturais e de Nascente de Portugal
Artigo originalmente publicado no Sapo, em 20 julho 2026